• Fabio Ritter

Goleiros da História: O homem das calças compridas

*por Fabio Fernandes


Se você acha que a qualidade de um goleiro se mede pela quantidade de títulos conquistados, então Armelino Quagliato Donizetti é um excelente goleiro.

Mundial de Clubes ele tem dois, mais duas Libertadores, mais Campeonato Brasileiro, Campeonato Paulista, Recopa, Supercopa, Conmebol, além de uma Copa do Mundo em 1994 pela Seleção Brasileira, quando foi reserva imediato do Taffarel.

Mas se você considera que às vezes um jogador não consegue muitos títulos e o que garante sua excelência é sua qualidade individual, sua competência, sua técnica, Zetti também é um grande goleiro.

E grande ele foi em todos os sentidos. Com 1,87m, Zetti além de uma ótima altura, também sempre foi muito forte.

Sempre foi decisivo. E foi decisivo porque ele era muito bom. Muito técnico. Era absoluto nas saídas de gol. Sabia esperar. É esperar, pois quem tem que tomar iniciativa na frente do gol é o atacante, o goleiro tem que impedir a ação dele. Um bote incerto e você é driblado e aí o gol fica livre. E Zetti esperava o momento exato para dar o bote ou defender a queima à roupa.

Cruzamentos? Foi soberano. Seguro. Saía sempre na certeza. Não me lembro dele socando a bola. Lembro-me dele sempre segurando e com muita firmeza. Se não saísse do gol, ficava embaixo das traves e fazia a defesa caso houvesse um cabeceio.

Mas e a reposição de bola? Ele também era demais. Melhor com as mãos é certo, mas fazia isso muito bem utilizando o corpo como manda a teoria.

Seu reflexo era muito apurado. Era ágil e forte. Mas até chegar a este patamar ele teve que atravessar um mar de espinhos.

Natural de Porto Feliz, pequena cidade próxima a Itu, foi criado em Capivari, tendo começado a jogar no time da cidade, mas logo foi parar no Guarani de Campinas. Foi dispensado, e rumou para outro alviverde. O Palmeiras.

Como a concorrência estava muito acirrada no Parque Antártica, foi emprestado para o Toledo do Paraná e depois para o Londrina. Voltou para o Verdão mais maduro aos 21 anos. Ficou no banco por cerca de um ano e meio e, na chance que teve como titular agarrou como agarrava a bola em jogos decisivos.

Se tornou unanimidade. Ficou 1238 minutos sem sofrer gols. Tudo caminhava muito bem, já estava há mais de um ano e meio como titular no Palmeiras, quando num lance com o flamenguista Bebeto, Zetti fraturou a perna. Ficou muitos meses se recuperando e quando voltou aos treinamentos teve novamente que amargar a reserva e ainda em escala de revezamento. Conseguiu comprar o próprio passe e foi para o São Paulo. Lá encontrou outra pedreira. Gilmar Rinaldi. Titular e experiente goleiro tricolor.

Mas Zetti sempre utilizou de sua maior e melhor arma. A competência. Logo se tornou o número 1 do Morumbi e um dos grandes goleiros do mundo, chegando a ser o quinto melhor de acordo com a Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS).

Zetti era realmente diferente dos outros, tanto é que passou a usar calça comprida em todos os jogos. Dizia não gostar das bermudas, opção da época, e que a calça possibilitava dar “saídas rasantes”.

Suas atuações, principalmente na Libertadores, foram decisivas para o time, ainda mais naqueles jogos em que as provocações e os objetos em campo eram inúmeros. Pois Zetti ignorava e fazia o que mais sabia. Jogar futebol.

Depois de tantos títulos no São Paulo e na Seleção Brasileira ainda teve tempo de faturar mais alguns no Santos. Torneio Rio-São Paulo e a Copa Conmebol em 97 e 98 respectivamente.

Ainda jogou no Fluminense, União Barbarense e Sport Recife. Encerrou a carreira em 2001 e já em 2003 se tornou treinador.

Teve sucesso sim. Obviamente ainda não igual ao de goleiro, pois esse será muito difícil de igualar.

No período em que esteve lesionado, Zetti aproveitou (e aproveita até hoje) para exercitar seu hobby favorito. A pintura. Fazia e faz isto com maestria, um verdadeiro artista. Um artista das mãos. Assim ele é nas telas e dentro de campo. Ele vivencia a arte da pintura, e a arte de ser goleiro.

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