• Fabio Ritter

Victor e Lauro


O Jornal Zero Hora, do último domingo, publicou uma exclusiva entrevista com os goleiros Victor, do Grêmio, e Lauro, do Inter. Ambos nascidos no interior paulista, conquistaram o sucesso na dupla Gre-nal e a confiança de suas torcidas. Veja na íntegra a entrevista abaixo:

Em boas mãos Entrevista: Lauro e Victor, GOLEIROS PAULISTAS DA DUPLA GRE-NAL

O primeiro encontro ocorreu em novembro do ano passado, em workshop de um fabricante de luvas para goleiros. Desde então, sempre que se veem, Lauro e Victor repetem o mesmo gesto ocorrido antes do início do Gre-Nal de Erechim: cumprimentam-se com um afetuoso abraço.

Nascidos no interior de São Paulo, os dois amigos têm características em comum nas carreiras, além da altura, 1m93cm. Lauro busca afirmação no ano do centenário do Inter, com a responsabilidade de ser substituto de Clemer, goleiro mais vitorioso da história do clube, Victor quer levar o Grêmio ao tricampeonato da Libertadores e acabar com o estigma de que nenhum goleiro se consagrou no Olímpico após Danrlei. Há convicção entre os dois: em Porto Alegre, ganharam a maior oportunidade da vida deles. Até por isso, e pelas agruras e particularidades que apenas o goleiro conhece, um torce pelo sucesso do outro.

– Seria um grande orgulho eu me destacar no Inter, o Victor, no Grêmio, sermos referência no Brasil como grandes goleiros – prevê Lauro. – Ter um bom goleiro no seu maior rival é uma motivação para você crescer dentro do seu clube – completa Victor.

Confira o descontraído bate-papo que a dupla teve com ZH no Parque Marinha do Brasil, em Porto Alegre. Zero Hora – Vocês se conhecem desde quando atuavam no interior de São Paulo? Victor – Nos encontramos poucas vezes. Ele estava na Ponte Preta e eu não era titular do Paulista. E o Lauro é meio coroa. Lauro – Pô, quantos anos você tem? Victor – 26, cara! Lauro – Eu tenho 28. ZH – Ambos têm a mesma altura, 1m93cm, não é, Victor? Victor – Eu falo que sim, mas não sei…ZH – Pesa 84 quilos? Victor – Um pouco mais… 87 quilos. ZH – E você, Lauro? Lauro – 1m93cm e 94 quilos. ZH – Você tem os ossos mais pesados? Lauro – (pausa) Sou mais forte. Em Andradina (interior paulista) há bastante milho… Victor – Agarrava boi na unha lá? (risos) ZH – Andradina é conhecida como a terra do Rei do Gado, certo? Por quê? Victor – Por causa da música. ZH – Da novela O Rei do Gado? Lauro – É, lembra? Victor – Não, era música do Carreiro (Rei do Gado, de Tião Carreiro e Pardinho, que cita Andradina no último verso)… Lauro – É… O rei do gado contra o rei do café. A região era toda de gado. Agora é de plantação de cana-de-açúcar. Victor – Naquela parte do interior paulista há muita criação de gado, mas a cana-de-açúcar está tomando conta. São muitas usinas de álcool. Lauro – O pequeno produtor arrenda as terras em vez de plantar. ZH – Vocês entendem do assunto. Victor – Meu pai tem sítio. Trabalhava com ele de vez em quando. ZH – Andradina também é lugar de atacantes: Gil, Fabrício Carvalho, Sinval. Tem também o Ricardo Prado, nadador… Victor – O (lateral-direito) Paulo Sérgio… Lauro – Também. ZH – É terra de goleiro também? Lauro – Rapaz, sou exceção… ZH – E Santo Anastácio, Victor? Victor – Só eu, bicho. E mais ou menos famoso ainda… Lauro – A cidade para quando ele chega lá. Victor – Teve ex-jogadores, mas atualmente só eu. Tinha um outro meia. Giuliano, mas acho que ele está fora, na Bolívia… ZH – Você foi escolhido cidadão emérito, ganhou a chave de Santo Anastácio. É festejado quando chega lá? Victor – (risos) Sempre tem uma condecoração ou outra coisa, mas quando volto procuro mais é ficar em casa, curtir a família. ZH – Vocês consideraram a vinda para a Dupla a grande chance da carreira? Lauro – Coloquei na cabeça que era a grande oportunidade da minha vida. Quando você sai de um clube pequeno e vai para um grande e não dá certo, como foi no Cruzeiro, consegue nova transferência para outro time e também não dá certo, a tendência é retornar a um time de menor expressão. É a grande chance da minha vida. Procurei me dedicar mais ainda. ZH – E você, Victor, que chegou com aquele tabu de que depois de Danrlei nenhum goleiro teve sucesso no Grêmio? Victor – Foi complicado. Cheguei a Porto Alegre no início de 2008 como uma aposta e desconhecido da torcida. Fiquei 10 anos jogando no Paulista, esperando essa oportunidade. Pensei: “Essa chance, eu tenho que abraçar”. ZH – Quanto à pressão de substituir Clemer, Lauro? Lauro – É difícil ter um treinador que opta por essa mudança. Seria muito bom para o Tite continuar com o Clemer até o final do ano. Ele apostou em mim e tenho responsabilidade com meu nome, com minha carreira e com o cara que acreditou em mim. Tem que colocar isso em consideração. Estou fazendo o melhor que posso. ZH – Por serem amigos, quando vocês se abraçaram antes do início do Gre-Nal falaram apenas “Boa sorte” ou brincaram dizendo: “Vê se deixa passar uma”? Victor – É uma coisa sincera, não tem sacanagem ou brincadeira porque goleiros sempre torcem um pelo outro, independentemente da rivalidade ou da questão cultural. Lauro – Torcedores fazem comparações: “Meu goleiro é melhor, meu goleiro pega mais”. Entre nós não existe isso. Seria um grande orgulho me destacar no Inter, e o Victor, no Grêmio. Sermos referência no Brasil como grandes goleiros. Victor – Até mesmo porque ter um bom goleiro no seu maior rival é uma motivação para você crescer dentro do seu clube. Quem tem a ganhar com isso são as equipes. ZH – Vocês sempre foram altos? Lauro – Quando eu tinha oito, nove anos, era baixinho e chamado de gordinho. Hoje meus amigos me perguntam o que eu bebi e comi porque sou alto e magro. É curioso, pois meus pais são baixos e, do nada, quando cheguei aos 15, 16 anos comecei a crescer. Victor – Ao contrário do Lauro, sempre fui um dos maiores da turma. Tinha o estigma de ser o último da fila na escola ou sentava no fundo para não atrapalhar os colegas. ZH – Era um complexo? Victor – Não porque sempre utilizei a altura para conseguir as coisas. No futebol era um dos primeiros a ser escolhido porque era maior, mais forte que os outros. ZH – No gol ou na linha? Victor – Na época, na linha… Me colocava no meio dos outros. Jogava onde botavam… A altura sempre jogou a meu favor. ZH – Já tiveram problemas em viagens devido à altura? Lauro – Sim, como dormir com metade da canela para fora da cama… Mas a gente dá um jeito. Coloca o colchão no chão e se arruma. Victor – Além da cama pequena, para mim toda viagem de avião é um martírio. Se não pegar o lugar próxima à saída de emergência, é uma tristeza porque as pernas são muito grandes, ficam apertando no banco da frente. Isso incomoda um pouco. ZH – Vocês se encontram aqui em Porto Alegre? Lauro – Precisamos armar um churrasco, mas o paulista, não o gaúcho (risos). ZH – Qual a diferença? Lauro – No churrasco paulista, você pega a picanha fatiada, o contrafilé fatiado e faz assado na grelha. Aqui é mais costelão, peça inteira. Victor – Mas lá na minha terra, Santo Anastácio, estou acostumado a comer churrasco gaúcho, no espeto.

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